A beleza de toda literatura

Eu não nasci num ambiente propício a tornar-se leitora. Não cresci em meio a grandes leitores, tampouco recebi auxílio e incentivo quando criança para imergir no universo literário. Há apenas três livros que remetem a minha infância: Branca de Neve, Cinderela e A Bela Adormecida. Edições da Disney dos anos 90.

Aos 10 anos de idade, durante as férias de verão de 2002, fui apresentada ao universo mágico de J.K. Rowling. Embarquei no Expresso Hogwarts, fui para a Escola de Magia e Bruxaria com Harry, e aquele acabara se tornando o verão mais incrivelmente mágico de toda a minha infância. Através da saga de Harry Potter, eu soube que a leitura seria essencial à minha vida. Naquele mesmo ano, eu iniciei a 4ª série numa nova escola e minhas primeiras amizades se deram através da ligação com o mundo bruxo. Éramos três melhores amigas, e inspiradas por Hermione, passávamos os intervalos na biblioteca explorando os mais diversos livros.

A adolescência chegou e com ela o choque de realidade. Presenciar o suicídio lento daquele que deveria me trazer segurança, era algo que eu não conseguia aceitar. Enfrentava momentos turbulentos dentro de casa dos quais refletiam, sobretudo, em meu rendimento escolar. Me isolei do mundo, mas ainda assim, não estava sozinha. Bastava abrir as páginas de um livro que Hogwarts estava lá, ajudando a todos aqueles que lhe recorressem.

Havia uma frase de Fitzgerald que me marcara: “Isso é parte da beleza da literatura. Você descobre que seus desejos são desejos universais, que você não está só e isolado de todo o mundo. Você pertence.” Eu pertencia às histórias dos personagens em meus livros; ao grupo de amigos que ela me proporcionou; pertencia ao mundo presente em todas as páginas que lia. Pela primeira vez, em minha vida, eu pertencia à algo. Eu era literatura, dos pés à cabeça.

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‘’Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.’’ – Clarice Lispector

Através de um simples ato de folhear, dei a volta ao mundo em oitenta dias, viajei pela terra média, atravessei as brumas para chegar até Avalon, estive presa dentro de um castelo na Romênia, me encantei pela Londres Vitoriana, participei da Revolução Russa e vivenciei o período louco da geração perdida de Paris nos anos 20.

O livro acabara se tornando um refúgio em meus dias mais sombrios. Me identifiquei e senti na pele a revolta de Holden Caulfield, fui cativada pela inocência e ingenuidade de Scout Finch, mas também já estive na mente conturbada e barulhenta de Raskolnikov. Chorei e sofri com Oliver Twist, e já desejei que a vida fosse como em O Coração de Tinta, para poder entrar nas páginas do livro e roubar Mr. Darcy para mim.

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Sou apaixonada pelo cheiro de livros novos, por edições raras e por dedicatórias antigas em páginas amareladas que encontro em sebos. Gosto das minhas estantes lotadas, minhas prateleiras bagunçadas e as pilhas de livros que me cercam.  Construí em meu quarto uma espécie de templo sagrado em meio as obras de J.K. Rowling, Tolkien, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Charles Dickens, Dosoievsky, e entre tantos outros.

A literatura surgiu como uma distração, um refúgio. Ela foi crescendo, ganhando mais força e espaço, tomando mais do meu tempo. Proporcionando uma fuga da realidade e me forçando a enxergar o mundo por diferentes pontos de vista. Ela me auxiliou na reflexão e compreensão para as situações de vida das quais muitas vezes me recusava a aceitar. Foi capaz de trazer empatia com a complexidade daquele que antes eu julgava. Sinto que a cada nova leitura, sou recompensada com um pouco mais de humanidade. E aos poucos, me liberto de meu próprio caos.

As almas que se cruzam mundo afora

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Quando viaja-se constantemente sozinho, descobrimos que, na maioria das vezes, a jornada não é solitária. Em tantos solos que já pisei, eu me conectei e dei Adeus à inúmeras pessoas que fizeram meu dia mais colorido. Eu não sei bem o que acontece para essa conexão breve ser tão forte. Se é a solidão, a saudades de casa, ou se é porque o propósito deles é o mesmo que o seu. Mas existem pessoas que em minutos ou segundos, com pequenos gestos, são capazes de te tocar de uma forma tão genuína, que deixam marcas mais profundas que amigos de anos.

Essas pessoas, para mim, são várias. Foi aquele homem que me ajudou à carregar a mala, pelos intermináveis degraus das escadarias do metro de Paris, à meia noite, depois de 23 horas de viagem. Foi a pessoa que me cobriu com uma manta, enquanto eu dormia, em uma noite gelada no aeroporto da Polônia. Foram as vendedoras de uma loja em Buenos Aires que prestaram socorro e me ofereceram abrigo, após ser assaltada.

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A vovó, dona de uma sorveteria em Dublin que me convidou, sem me conhecer, para passar a tarde com ela e os netos na beira da praia, em um dia de sol. O rapaz em Sevilha, na Espanha, que me socorreu no quarto do hostel quando estava delirando e com 40 graus de febre.  O homem que me deu um sanduíche do Subway, para pagar no dia seguinte, depois do meu cartão ser engolido pelo caixa eletrônico e não ter absolutamente nada na carteira para pagar o jantar daquela noite. O garçom que deu um doce sorriso, de presente, em um dia nublado em Ushuaia, quando eu estava sozinha e triste por estar indo embora.

A moça que me viu sozinha numa praça na Irlanda, em meio às lágrimas, por conta da saudade de casa, e me ofereceu um abraço. O pianista da Grafton Street que embalava minhas manhãs frias e nubladas em Dublin, e que em um certo dia me convidou para tocar algumas notas, porque reparou que eu passava por lá todos os dias, e sempre ficava estática, por alguns minutos, o ouvindo tocar.

Esse texto é uma homenagem à esses “amigos de percurso” que fiz – mesmo que por alguns segundos, em algum canto do mundo -, na esperança de que algum dia esse agradecimento possa chegar à eles. Eu não lembro seus nomes, tampouco sei algo sobre suas vidas pessoais. Mas, as vezes, penso neles. Sempre com apreço e gratidão. Eles me estenderam a mão. Fizeram com que eu me conectasse com o país, com a cultura, com a alma deles.

Eles não fazem ideia da diferença que um sorriso em meio à multidão faz, quando se está sozinho. Tampouco tem a noção do medo que passei para enfrentar alguns desses desafios por conta própria, e quão acolhedor foi ter recebido ajuda de completos desconhecidos. Mal sabem que dividir o peso da mala, tão somente faz bem para a coluna, mas também para o coração. Mal sabem como foi bom ser acolhida, de braços abertos, longe de casa. Mal sabem eles que fizeram minhas viagens valerem a pena e que me tocaram de tal modo que tornaram-se perpétuos para mim.

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Um eterno obrigada à esses seres iluminados que restauraram a minha fé na humanidade.

Beleza austral: dicas de Ushuaia

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Ushuaia (pronuncia-se Ussuaia), cidade conhecida também como Fim do Mundo (onde o vento faz a curva e Judas perdeu as botas), é o ponto mais ao Sul do mundo e localiza-se na Argentina, na famosa região da Patagônia.

Eu a visitei por uma semana em outubro de 2014, e o lugar simplesmente conquistou meu coração no momento em que o avião encostou no chão. O pouso foi um dos mais suaves e mais lindos que já presenciei, e naquele momento, ainda dentro do avião, sabia que um destino magnífico (e gelado!) me aguardava. Seguem as dicas para organizar sua viagem para Ushuaia:

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Como chegar em Ushuaia

Eu utilizei a companhia aérea Aerolineas Argentinas, saindo de Santiago, no Chile, com conexão em Buenos Aires. Como estava com tempo, peguei uma conexão de 12hs e aproveitei para passear pela capital argentina, além de ter tempo de trocar dólares por pesos argentinos, onde há melhor cotação que Ushuaia. Vale lembrar que é possível voar do Brasil também pela Latam, mas há sempre conexão em Buenos Aires. Como o país faz parte do Mercosul, não é necessário passaporte, apenas o RG.

Dica especial: sugiro sentar no lado direito do avião, de preferência na janela. Ao início do pouso, é possível avistar a Cordilheira dos Andes com seus picos nevados te encarando. Ali mesmo, naquele momento, eu me emocionei e já sabia que a viagem seria inesquecível.

O que levar na mala

Essa cidade pertence à aqueles que amam a natureza, e que gostem de frio ou no mínimo, não se importem. A temperatura média mais alta durante o ano todo é 15°C. Eu cheguei a pegar -16°C no início da primavera.  Portanto, recomendo que você tenha botas de trekking (botas de trilha), porque a neve eventualmente derrete e para ganhar uma bunda roxa não precisa de muito esforço. Ademais, achei necessário usar blusa térmica, luvas, gorro, além de calça e capas impermeáveis para escapar da frio.

Onde se hospedar

Ushuaia oferece uma gama de hotéis, pousadas e hostels para todos os gostos e bolsos. Acredito que o melhor lugar para ficar em Ushuaia é no centro, nas imediações da Avenida San Martín. Lá, será possível encontrar a maior parte do comércio, diversas opções de restaurantes e acesso fácil ao Porto, local de onde saem os passeios de barco no Canal Beagle e próximo ao posto de informações da Secretaria de Turismo.

Eu me hospedei no Hostel Antarctica (quarto misto para 6 pessoas), que tem um preço super bacana, e fica há apenas duas quadras da rua principal, a Av. San Martín. O quarto era quentinho, os banheiros limpos e uma galera pra lá de hospitaleira.

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A cozinha oferece todas as facilidades para quem quer economizar na comida (mas dou a dica de reservar uma noite, pelo menos, para comer um King Crab em algum restaurante da cidade). Além da cozinha, tem uma sala muito aconchegante com sofás.

A cidade conta com uma gama de passeios incríveis, entre eles: trilhas em parques, esqui, passeios 4×4, passeios de barco, trilha em uma ilha no Canal Beagle, observação de pinguins, lagos, trenó puxado por cães, entre tantas outros.

Segue abaixo o que você não deve perder em Ushuaia

 Lagos Escondido e Fagnano

Esse passeio foi, sem dúvidas, o meu preferido em Ushuaia. Foi também, de longe, o passeio mais caro que realizei, no entanto valeu cada centavo. A agência da qual fiz dois passeios e que indico com muito carinho, é a Canal Fun & Nature. Os guias eram simpáticos e muito solícitos. Ele durou cerca de seis horas e passou pelos Lagos Escondido e Fagnano. Ambos os lagos revelam paisagens naturais espetaculares e tranquilas.

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Logo pela manhã, me buscaram de carro diretamente no hostel em que estava hospedada, e ao sair da cidade, imediatamente nos deparamos com cenários incríveis! Nossa primeira parada foi no Mirante Paso Garibaldi, que tinha uma vista deslumbrante dos lagos. Em seguida, nos dirigimos para o sítio Llanos del Castor para a melhor surpresa que eu poderia ter. Ele oferecia a opção de andar bosque adentro em motos de neve ou em um trenó puxado por cães.

O trenó era um dos meus sonhos de criança, e quando vi a opção, que inicialmente não estava no passeio, eu me emocionei. O bosque estava branquinho por conta da neve, e uma cabana de madeira com fumaça saindo da chaminé enfeitava a paisagem. Os cães são muito bem cuidados (alguns até são bem gordinhos!) e são todos bem mansos. O passeio durou cerca de 10 minutos.



Ao sairmos do Llanos del Castor, andamos e paramos algumas vezes ao longo do caminho para admirar a paisagem e tirar algumas fotos. Ao circundarmos o Lago Escondido, os guias nos deixaram no início da trilha para seguirmos a pé e nos indicaram onde ficava a cabana em que iríamos almoçar.

A cabana era simples e quentinha, bem no meio da mata. Foi possível avistar raposas, castores, e diversos pássaros enquanto esperávamos o almoço ficar pronto. Foi servido um prato de carne de gado, arroz e saladas, além de pão com chorizo de entrada, acompanhado de vinho da Patagônia e suco.

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Passeio de barco no Canal Beagle e ilhas

O estreito de Beagle (ou canal de Beagle) separa as ilhas do arquipélago da Terra do Fogo. Além de ligar o oceano Atlântico ao Pacífico, ele separa a Ilha Grande de diversas pequenas ilhas ao sul e ainda marca a fronteira entre o Chile e a Argentina. Ele recebeu o nome por causa de um navio britânico que realizou viagens de exploração no estreito, no início do século 19.

Uma coisa bastante interessante que descobri durante o passeio, foi que o segundo comandante do navio HMS Beagle levou a bordo Charles Darwin – sim, o mesmo da Teoria da Seleção Natural -, durante quase 5 anos. Foi após essa viagem e publicações posteriores que deram a Darwin o reconhecimento como geólogo e fama como escritor.

O passeio pelo Canal Beagle dura cerca de 3h30min e acontece durante todo o ano. As empresas Tolkeyen e Rumbo Sur têm saídas diárias do porto às 9h30 e 15h30. Embora algumas pessoas discordem, eu recomendo o passeio com a trilha na Ilhas Bridges.

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Logo no início do passeio, podemos avistar a Baía de Ushuaia, e observar como a cidade é cercada por incríveis montanhas nevadas. Entre o passeio, estão inclusas diversas paradas, sem desembarque, para observar a fauna do fim do mundo. Entre elas, a Ilha dos Pássaros e a Ilha dos Lobos, seguida da Ilha do Farol Les Eclaireurs (erroneamente chamado de farol do fim do mundo).

Por último, e não menos importante, desembarca-se e é realizada uma trilha na Ilha Bridges. A subida leva, aproximadamente, 30min à passos muito tranquilos. Esse foi, para mim, sem dúvidas, o ponto alto do tour. A vista era magnífica, apesar do vento forte e congelante. Era possível contemplar um infinito verde, com a cadeia de montanhas que circundam a Baía ao fundo. Além de tudo, a ilha ainda conta com uma história muito rica sobre a vida dos índios Yámanas que a habitavam há centenas de anos.

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Topo da Ilha Bridges

Dica especial: Sugiro ir com roupas quentes, inclusive no verão, pois no topo da trilha venta muito e o ar torna-se ainda mais gélido. Dê preferência para dias que o tempo esteja aberto, porque acredito que a vista seja ainda mais fantástica.


Glaciar Martial

Para chegar até a base do Glaciar Martial do centro de Ushuaia, a melhor opção é ir de táxi ou remix (táxi que oferece a corrida com valor fixo). Como estava com mais duas pessoas que conheci no hostel, dividimos o total de 35 pesos argentinos o trecho.
Durante o inverno, o Cerro possui uma estação de esqui simples de uma pista, e portanto existe um teleférico que pode ser usado para chegar até o topo. Apesar de estar nevando muito na semana em que eu fui, já era primavera e a estação já estava fechada, então decidimos subir à pé.

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Eu realizei a caminhada em um dia muito frio, e lá pela metade do caminho começou uma nevasca. Resultado: rosto queimando, neve na altura do joelho e muito vento. Devo dizer que o tempo naquela semana que visitei a cidade, não contribuiu em algumas coisas. No meu caso, a experiência valeu para eu ver como sou resistente, e aguento muito mais do que pensava. Levei 3h30min (ida e volta) e estava aproximadamente -15°C durante boa parte do trajeto.

Dica especial: se estiver nevando muito, abuse do protetor labial, e proteja o rosto com algo contra a neve e o vento. Não há um ponto de táxi no Cerro. Para voltar ao centro da cidade, você pode solicitar um táxi ou remix nas lojinhas que ficam na base do Glaciar.


Parque Nacional Terra do Fogo

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Local onde se encontra o Correio do Fim do Mundo

O Parque Nacional Terra do Fogo fica há 12km do centro da cidade e é um dos pontos turísticos mais importantes de Ushuaia. Possui uma natureza exorbitante, com lagos, bosques, castores e aves exóticas. Tudo isso em uma área verde enorme com cerca de 63.000 hectares. Como todas as trilhas são muito bem sinalizadas (inclusive, com nível de dificuldade e distância), e possui uma infraestrutura excelente para um parque desse tamanho, é possível chegar de carro e deixá-lo no estacionamento, ou com vans que te esperam no final do passeio.  No parque, ainda tem o Trem do Fim do Mundo, construído para que os prisioneiros de Ushuaia pudessem cortar lenha.

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Topo da trilha pelo Parque Nacional Tierra del Fuego

Com todas essas opções e o fato de eu não ter preparo físico nenhum, e estar completamente cansada e queimada devido à subida ao Glaciar no dia anterior, eu resolvi fazer o passeio para o Parque Nacional com carro 4×4 e trilhas curtas. Porém,  a agência me buscou com o carro errado, e acabei caindo de paraquedas neste outro tour. Felizmente, conheci uma galera muito querida, e como eu estava sozinha, me acolheram.

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Galera querida que me acolheu

Nesse passeio, inicialmente remaríamos da Bahia de Lapataia até o Canal Beagle, com duração de cerca de 1h. E depois uma trilha longa para conhecer o parque. Porém, no meio do trajeto com o caiaque, começou a nevar e ventar muito e embora remássemos com muita rapidez, bastava apenas alguns segundos de descanso para sermos levados pela correnteza e irmos de ré. Tivemos que chegar nas margens do rio e encerrar o passeio de caiaque. Seguimos então a pé, e andamos por cerca de duas horas pelo parque.

No final da caminhada, chegamos a Bahia Ensenada. Ela tem uma pequena praia com pedras, vista para o mar e um ar extremamente gélido. Porém, conta com uma atração muito bacana procurada pela maioria dos viajantes: o Correio do Fim do Mundo. Lá, por 10 pesos argentinos, é possível carimbar o passaporte com o selo oficial do Parque Nacional da Terra do Fogo.

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Correio do Fim do Mundo

Outros passeios

Para quem gosta de história, eu recomendo visitar a Prisão de Ushuaia (a quatro quadras do hostel). Ela ainda permanece intacta, toda original e apresentando um documento com foto, a entrada é gratuita. Existe também a famosa placa do Fim do Mundo, que é muito procurada pelos turistas. Ela fica próxima ao  centro de informações turísticas, onde você pode carimbar de graça o passaporte com uns stamps magníficos.

Existe uma estação de esqui há 26km da cidade, no Cerro Castor. Como não sou grande fã de esqui (leia-se, não consigo andar) optei por não ir. Para quem vai no verão, eu aconselho muito ir à Laguna Esmeralda, ouvi maravilhas de lá entre inúmeros  amigos. Infelizmente, como estava nevando muito, estaria coberta de neve.


Depois de curtir por uma semana, me despedi de Ushuaia tomando uma cerveja no Dublin Irish Pub, onde tocava um rock suave, com diversas opções de bebidas, incluindo uma ótima cerveja da Patagônia e lotado com pessoas de todo canto do globo.

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Lago Escondido

Eu não tenho dúvidas que Ushuaia irá preencher e aquecer seu coração. O povo é hospitaleiro, a comida é gostosa, a cama é quentinha, e a paisagem irá te arrancar suspiros e sorrisos durante toda a estadia.

O dia que descobri que eu pertenço ao mundo

Desde que tenho idade suficiente pra me considerar gente, lembro que Paris estava presente como meu maior anseio. A ideia de conhecer os lugares boêmios descritos nos livros dos grandes autores, a graça das mulheres francesas, os cafés nos fins de tarde durante o verão.

 Aoportunidade surgiu durante meu intercâmbio na Irlanda, em 2011, e Paris foi,  sem dúvidas, meu primeiro destino logo após me mudar para Dublin. Cheguei na capital francesa em um dia nublado, porém glorioso. Em alguns cantos da cidade, o sol se revelava por entre as nuvens. O sonho tinha se tornado realidade, e eu não poderia estar mais excitada. Tanta coisa para ver, para fazer, para sentir e eu não queria perder um minuto. Imediatamente após a chegada, coloquei meus fones de ouvido com músicas que transbordam emoções, a câmera no pescoço e me atirei nos braços da cidade.

Sabe a coisa mais incrível que descobri? Paris é exatamente como descrevem, e a experiência pode ser tão apaixonante quanto almejamos. A estadia deve ser saboreada. Você deve perder-se  pelas ruas do bairro latino Quartier Latin, tomar um café enquanto vê o mundo passar, entender o mapa de metrô, e estar ciente de que à primeira vista ele vai te assustar mesmo e está tudo bem. E só então sentirá aquilo que todos falam, mas poucos realmente sentem.

Entre tantos lugares que indico, meu maior amor é o local em que tive minha primeira revelação. É uma praça minúscula, chamada René Viviani, ao lado da livraria Shakespeare & Company. Logo após chegar à bookstore, que foi o lar de diversos autores geniais (em outro post posso contar um pouquinho sobre a alma desse lugar), comprei Orgulho e Preconceito, numa versão maravilhosa de capa dura, um café para viagem, e me sentei em um banco nessa praça.

Praça Rene Viviani @rechpoly

Eu senti a brisa leve bater no rosto, suspirei ao notar a vista da majestosa catedral de Notre Dame, me encarando. Tudo que eu podia sentir era a emoção de estar exatamente onde queria desde os meus 10 anos. Naquele momento caiu a ficha. Eu estava em Paris! Com apenas 18 anos, nada de experiência, sozinha e uma vida toda de possibilidades à minha frente. Algo dentro de mim mudou nesse dia.

Chopin disse que Paris responde à tudo que um coração deseja, e eu desejava pertencer. Acabei descobrindo, naquele momento, que eu pertencia ao mundo.

Pont des Arts Paris
Pont des Arts @rechpoly

Depois de passar por mais de 30 países ao longo dos últimos 5 anos, venho compartilhar com vocês tudo o que aprendi e vivi, sendo mulher e viajando sozinha por esse mundão. Estarei compartilhando histórias, algumas indiadas, emoções, dicas e fotografias que falam.

Espero que essa jornada seja uma experiência tão especial para vocês quanto será pra mim.  E logo de cara, já lhes digo: joguem-se! Não há absolutamente nada de errado em estar sozinha na cidade mais romântica do mundo e nem em qualquer outro canto do globo. Vivam, sintam e abracem o mundo sem medo de ser feliz, porque ele, de fato, é grande demais para você nascer, viver e morrer no mesmo lugar.

Um brinde (no pôr do sol lá de Paris) à essa nova etapa e até a próxima.